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Velhos hábitos não fazem um ano novo

30 de dezembro de 2019

Última semana de Dezembro. Últimos dias do ano. Último ano de uma década. A sensação é sempre a mesma, de mistura de alívio com uma certa nostalgia pelo tempo que passou. Cansaço com curiosidade (e uma certa angústia!) pelo que vem pela frente. Nos sentimos um pouco presos ao passado, pelas coisas que deixamos de fazer, e ansiosos pelo futuro que ainda nem sabemos como será.

Final do ano é sempre aquele tempo em que tradicionalmente renovamos as esperanças e fazemos listas de coisas que queremos realizar no ano seguinte. O problema é que essa motivação dura pouco, muito pouco. Logo voltamos para a rotina, para os problemas, para a vida que nos espera no primeiro dia útil de Janeiro. Final do ano se parece com aquelas palestras motivacionais em você fica com vontade de conquistar o mundo, mas que só sobrevive até a hora em que sai do evento e dá de cara com a vida real.

Essa era uma sensação recorrente para mim, até que ano passado resolvi fazer diferente. Decidi que não iria mais falar que a vida estava corrida. Decidi não mais falar que o tempo estava passando rápido demais. Decidi viver no presente e não ser mais um borrão, como diz o Wellington Nogueira do Doutores da Alegria:

“O homem aprendeu a botar a meta do futuro, que não aconteceu ainda. E correr atrás do prejuízo do passado, que já foi. Se você tirar uma foto do homem contemporâneo vai sair um borrão. Porque esse coitado não habita a única certeza que ele tem na vida que é o momento presente”.

No final de 2018 eu decidi que criaria um espaço no meu dia para voltar a praticar algo que gostava muito de fazer e que não fazia mais há algum tempo: correr. Mas voltar a correr por correr não me traria o estímulo, a motivação e principalmente a disciplina necessária para treinar. Decidi então que correria a minha primeira maratona em até 2 anos.

Fiz meus exames, entrei para um grupo de assessoria esportiva e abri o espaço na minha agenda para acordar às 5:30 da manhã, 3 vezes na semana, para treinar. Eu sempre detestei acordar cedo, mas ou eu treinava neste horário ou não treinava, não havia muita escolha.

Comecei a treinar em Fevereiro e a primeira volta de 5 km no parque foi o percurso mais sofrível de todos. As pernas não davam conta de correr, o ar não entrava, o coração queria sair pela boca! Depois vieram os treinos de tiro, os 10 km, os “longões” de final de semana e finalmente em Novembro, depois de 9 meses corri minha primeira meia maratona: 21,097 quilômetros. Primeira etapa da meta de correr uma maratona foi cumprida com sucesso, mas não que tenha sido fácil.

Faltando quase 500 metros para cruzar a linha de chegada da prova, eu já não aguentava mais. Meu pensamento era: preciso terminar isso, preciso terminar isso…. estava pronta para começar a caminhar quando vejo meu treinador de longe. Ao me ver ele gritou: isso aí Marininha, você consegue!!! Falta pouco!!!

Isso foi o suficiente para me dar as forças necessárias para finalizar a prova. Durante todo o percurso, por mais de 2 horas correndo com o sol quente na cabeça e o tempo seco de Brasília, os pensamentos oscilavam tal qual uma montanha russa:

– Que demais, não acredito que consegui chegar até aqui!

– Misericórdia, o que eu estou fazendo aqui?!! Por que eu fui inventar isso??

– Já foi metade da prova, vamos em frente!

– Não consigo correr mais 1 km, vou desistir!

– Eu prometi a medalha pro Raul (meu filho) e vou levar para ele!

– Nunca mais vou correr uma prova longa como essa!

– Quando será a próxima prova?!?

Eu escolhi correr porque a corrida se assemelha muito com os desafios do meu dia a dia. Há 3 anos eu cuido da minha empresa, há 5 do meu filho, há 10 do meu casamento e há alguns bons anos da minha vida. Assim como na corrida, na vida tem dia que não há motivação para fazer as coisas que são necessárias. Nessa hora aprendi que mais importante do que se sentir motivado é se tornar disciplinado.

Tem dia que penso: porque eu estou fazendo isso? E encontro nos pequenos prazeres das pequenas conquistas as respostas para seguir em frente em busca de realizar algo maior, algo que faça sentido para mim. Alguns chamam isso de propósito, outros de legado. Pode chamar como quiser, desde que o faça acontecer através de pequenas e sucessivas ações diárias.

Com a corrida aprendo que o esforço tem que ser constante e consistente para ganhar condicionamento físico e mental. Um treino ruim é melhor do que não treinar. Se eu ficar um mês sem treinar, não vai adiantar correr o dobro no mês seguinte, pois isso só vai me causar uma lesão. Que o principal desafio é contra eu mesma, mesmo fazendo parte de um grupo, de uma equipe. E principalmente: tudo isso precisa se converter em felicidade.

Tal qual a corrida é a rotina de quem empreende, de quem quer empreender ou de quem não se vê empreendendo. Não importa onde se está, o que esteja fazendo ou o que se pretende fazer. O que há em comum em qualquer que seja a situação é que, se há o desejo de se realizar qualquer mudança que seja na vida é preciso começar colocando ação, energia em movimento. E que não temos que ter medo de começar pequeno. Uma árvore um dia foi uma semente, um adulto um dia foi um bebê, um negócio de sucesso um dia foi apenas uma ideia.

Por isso, neste finalzinho de ano eu gostaria de compartilhar o principal aprendizado que tive com tudo isso: seja gentil com você. Seja qual for a meta que você deseja alcançar no futuro, aceite começar aos poucos, respeitando o seu ritmo e ir ganhando condicionamento. Celebre as pequenas conquistas. Foque em você, no que deseja realizar, não queira viver o caminho do outro, você não sabe o quanto e nem como ele caminhou para chegar onde chegou. Se cansou, descanse, diminua o ritmo. Reflita, reveja seus conceitos, repense seus hábitos, exercite os seus valores, faça o seu ano ser realmente novo.

E o faça no presente, no dia a dia, com aquilo que se tem às mãos no momento. Como já disseram, o caminho se faz caminhando. Espero que você, ao final dele, não diga mais que o tempo passou rápido demais ou que foi corrido. Que você diga simplesmente que foi um ano muito bem vivido. Cabe a você tornar 2020 um ano feliz e não apenas esperar que ele seja um feliz ano novo.

(Foto: Foco Digital | Daniel Oliveira – treinador e Marina Fusco Piccini | BSB City Half Marathon 2019)

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